Falar de Património Cultural é, inevitavelmente, falar de Cultura.
Mas será que, quando pensamos em políticas culturais, pensamos verdadeiramente no Património enquanto parte integrante dessa mesma Cultura?
A questão pode parecer simples, mas talvez não o seja.
Durante décadas, o Património foi sendo entendido sobretudo através da necessidade da sua protecção, conservação e salvaguarda.
A Cultura, por sua vez, foi assumindo outros espaços: a criação artística, a programação, os equipamentos culturais, os eventos, a participação e a produção contemporânea.
Criaram-se, assim, diferentes áreas de intervenção, diferentes instrumentos e, muitas vezes, diferentes formas de pensar a Cultura.
Mas o Património não vive isolado.
Um edifício, uma paisagem, uma prática, um saber ou uma tradição só adquirem verdadeiro significado quando compreendidos pela sociedade que os criou, transformou e transmitiu.
E é precisamente aqui que a relação entre Património e políticas culturais se torna particularmente interessante.
Porque preservar Património não é apenas conservar aquilo que chegou até nós;
É compreender o seu significado,
É compreender a sua relação com as pessoas,
É perceber de que forma continua a fazer parte da vida de uma comunidade,
É, também, perceber quando deixou de fazer parte dela.
Será que uma qualquer política cultural pode considerar-se verdadeiramente integrada quando o Património é tratado apenas como uma área administrativa autónoma?
Será suficiente restaurar um edifício histórico sem pensar na função que poderá desempenhar na comunidade?
Será suficiente promover uma tradição sem compreender aqueles que a praticam?
Será suficiente transformar um lugar histórico num produto cultural ou turístico sem questionar aquilo que se perde nesse processo? Talvez não.
Talvez uma política cultural deva começar precisamente por compreender que a Cultura não é apenas aquilo que produzimos no presente.
É, primeiramente, a herança que recebemos, reinterpretamos e transmitimos, e o Património constitui uma das formas mais evidentes dessa continuidade.
Mas existe uma questão que me parece ainda mais importante.
Quem define aquilo que uma comunidade deve preservar?
Quem decide o que é relevante?
Quem escolhe aquilo que merece ser valorizado?
E quem fica de fora desse processo?
Porque as políticas culturais não são neutras.
Cada escolha implica uma outra possibilidade.
Cada classificação atribui valor.
Cada investimento estabelece prioridades.
Cada programa de valorização determina, de alguma forma, aquilo que queremos tornar visível.
E, consequentemente, aquilo que pode permanecer invisível.
É por isso, na minha opinião, que pensar o Património enquanto política cultural exige mais do que conhecimento técnico.
Exige reflexão.
Exige responsabilidade.
Exige capacidade de ouvir.
E, sobretudo, exige reconhecer que as comunidades não devem ser apenas destinatárias das políticas culturais. Devem, antes porém, ser parte integrante da sua transmissão.
Texto: Carlos Fidalgo
Foto: Carlos Fidalgo