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Património Cultural, História e Genealogia

Sr. Albano Pereira Barbosa: Uma voz de Sebolido Memória, território e identidade através de uma vida dedicada à terra

Há pessoas que, pela sua ligação profunda à terra onde nasceram e viveram, acabam por tornar-se parte da própria memória dessa comunidade. O Sr. Albano Pereira Barbosa, antigo Presidente da Junta de Freguesia de Sebolido, foi uma dessas pessoas.

O seu falecimento deixa uma ausência difícil de preencher, não apenas entre aqueles que com ele privaram, mas também no património imaterial de Sebolido. Sem ele desaparece uma parte de uma memória vivida, construída através de décadas de contacto com as pessoas, os lugares, os caminhos, as casas, o rio, o monte e as transformações que marcaram a freguesia ao longo do século XX.

Esta homenagem nasce também de uma relação que ultrapassou a simples recolha de informação. Durante o desenvolvimento da minha dissertação de mestrado em Arqueologia, Caminho da Memória: território, identidade e arquitetura vernacular em Sebolido (Penafiel), tive a oportunidade de percorrer as ruas de Sebolido acompanhada pelo Sr. Albano, ouvindo as suas memórias e recorrendo ao seu conhecimento para compreender melhor uma terra que é também a minha.

A dissertação, apresentada em 2024 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, procurou estudar Sebolido de forma multidisciplinar, cruzando arqueologia, etnoarqueologia, memória oral, documentação de arquivo, fotografia, cartografia e bibliografia. O objetivo foi compreender não apenas a história da freguesia, mas sobretudo a relação entre a comunidade, o território e a paisagem. (Lopes, 2024)

Neste percurso, o Sr. Albano assumiu um papel particularmente importante.

O Sr. Albano e a construção de uma memória de Sebolido

Na minha investigação, a memória oral foi entendida como uma fonte essencial para alcançar dimensões do passado que os documentos escritos nem sempre conseguem transmitir. A história de uma comunidade não está apenas nos arquivos: encontra-se também nas recordações daqueles que viveram os seus lugares e acompanharam as suas transformações. Foi neste contexto que o conhecimento do Sr. Albano revelou-se fundamental.

Como escrevi na dissertação, durante o trabalho de campo percorri as ruas de Sebolido com o Sr. Albano Pereira Barbosa, então identificado como antigo Presidente da Junta de Freguesia, reconhecendo nele um profundo conhecimento das vivências e saberes da região, bem como de todo o património existente e daquele que desapareceu ao longo do século XX. (Lopes, 2024) Esta referência, escrita no contexto da investigação, ganha hoje um significado diferente.

Aquilo que então era uma fonte de informação para compreender o passado de Sebolido tornou-se, com o seu desaparecimento, também um testemunho da importância de preservar as vozes que ainda conhecem esse passado.
O vídeo agora registado constitui precisamente uma extensão desse trabalho de preservação. Ao gravar a voz e as memórias do Sr. Albano, procurei conservar não apenas aquilo que ele dizia, mas também a sua forma de recordar, de identificar os lugares e de estabelecer relações entre o passado e o presente.

Uma terra contada por quem a viveu

A investigação desenvolvida em Caminho da Memória partiu da ideia de que o território deve ser compreendido como um espaço vivido. Sebolido não é apenas uma unidade administrativa ou uma paisagem geográfica: é o resultado da relação continuada entre uma comunidade e o espaço que ocupou, trabalhou e transformou.
A Serra da Boneca e o rio Douro constituem elementos estruturantes dessa paisagem. A posição de Sebolido sobre o Douro condicionou relações, atividades e formas de vida, enquanto o monte e as terras agrícolas desempenharam igualmente um papel importante na economia e na organização da comunidade. (Lopes, 2024) Mas uma paisagem só pode ser verdadeiramente compreendida quando se conhecem as histórias das pessoas que nela viveram.
É aqui que o testemunho do Sr. Albano ganha uma dimensão especial. As suas memórias permitiam reconhecer uma Sebolido que nem sempre é imediatamente visível no território atual: uma freguesia marcada pelo trabalho, pelas relações de vizinhança, pelas atividades agrícolas, pelo rio, pelo monte e por um património que, em parte, se perdeu. O seu conhecimento funcionava, assim, como uma verdadeira cartografia da memória.

Do estudo académico ao registo da memória

Ao longo da elaboração da minha dissertação, procurei precisamente cruzar diferentes formas de conhecimento. O trabalho de campo incidiu sobre a arquitetura doméstica, com particular atenção à casa-pátio, uma tipologia característica de várias famílias ligadas à agropecuária em Sebolido. Estas casas eram muito mais do que espaços de habitação: articulavam a vida familiar, o trabalho agrícola, os animais, o armazenamento e a produção. (Lopes, 2024) Para compreender estes espaços, porém, não bastava observar as construções. Era necessário compreender as pessoas que os habitaram. Foi por isso que as memórias dos habitantes tiveram um papel tão importante na investigação. A própria dissertação procurou, através da memória oral, aproximar-se do quotidiano vivido e recuperar informações que permitissem compreender melhor a organização social, económica e espacial da freguesia. (Lopes, 2024)

Neste sentido, o vídeo do Sr. Albano pode ser visto como uma continuação natural desse percurso. Registando a memória de Sebolido através de diferentes fontes; o vídeo permite agora conservar diretamente a voz de uma das pessoas que contribuiu para esse conhecimento.

Uma homenagem também à terra

Ao revisitar hoje o testemunho do Sr. Albano, torna-se impossível separar a sua memória da própria memória de Sebolido. A sua importância não reside apenas nos cargos que desempenhou ou nas funções que exerceu na comunidade. Reside sobretudo no conhecimento que acumulou e na disponibilidade para o partilhar. Para mim, enquanto autora da dissertação Caminho da Memória, o encontro com o Sr. Albano fez parte de um processo de investigação que procurava precisamente dar atenção às pessoas enquanto agentes fundamentais da construção da memória local.

O estudo desta terra através dos seus documentos, das suas paisagens, das suas casas e dos seus vestígios, mas também através das pessoas que lhe deram vida. (Lopes, 2024) Por isso, esta homenagem é também uma forma de reconhecer que o conhecimento produzido sobre Sebolido não nasce apenas dos arquivos ou da academia. Nasce igualmente da comunidade e daqueles que, como o Sr. Albano, aceitaram abrir as portas da sua memória.

Uma voz que fica

O Sr. Albano já não percorre as ruas de Sebolido para mostrar aquilo que conheceu durante uma vida. Já não aponta os lugares, recorda as pessoas ou explica as mudanças da paisagem.

Mas ficou a sua voz.

Enquanto autora de Caminho da Memória, sinto que este registo ganha hoje uma importância que talvez não pudesse ser totalmente compreendida no momento em que foi realizado. O trabalho que então procurava estudar e preservar a memória de Sebolido permite agora que uma dessas vozes continue presente. E talvez seja essa a melhor forma de compreender o verdadeiro significado de património: não apenas aquilo que permanece fisicamente, mas também aquilo que conseguimos recordar, registar e transmitir.

Que esta seja, por isso, uma homenagem ao Sr. Albano Pereira Barbosa — mas também à sua voz, à sua memória e à Sebolido que ele ajudou a contar.


Em memória do Sr. Albano Pereira Barbosa.

Inês da Rocha Lopes
Autora da dissertação de mestrado em Arqueologia
“Caminho da Memória: território, identidade e arquitetura vernacular em Sebolido (Penafiel)”

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